Breakfast at Tiffanys


Educação perdida nas cidades sem alma
julho 24, 2008, 4:03 pm
Filed under: Só vendo a banda passar

One more…das antigas. Este saiu no jornal da cidade, para orgulho da do lado da família pinhalense.

 

Praça do Café, a prefeitura da cidade.

Manhã de domingo. Uma praça comum e graciosa com seus monumentos, sua história. Um senhor distinto, sentado em um dos bancos lê o jornal, enquanto alguns visitantes fotografam, tentando levar pelas imagens um pouco da paz e tranqulidade que o local inspira. Ao lado, um banco vazio nada convidativo a receber um ocupante – foi batizado pelos pássaros, habitantes mais que naturais das praças e com direito reconhecido em cartório de batizar quantos bancos desejarem. Buscando um breve descanso à sombra, um rapaz integrante do grupo ensaia sentar-se no banco vazio, mas um alerta o breca: – Ta sujo !!!! Não senta.
Acompanhando a cena, o distinto cavalheiro imediatamente se levanta.
– Senta aqui amigo! E sai andando com o jornal à tiracolo, deixando o banco livre para os visitantes.
O grupo é minha família e a cidade é Espirito Santo do Pinhal, interior de São Paulo – terra de minha avó materna, com tantas histórias de meus ancestrais e muitas lembranças de minha infância. O rapaz, meu marido.
Olhamo-nos estarrecidos. Acostumados a total ausência de gentileza, aquele foi o clímax de um espanto que somou-se a outras cenas inusitadas, raramente presenciadas em nosso dia-a-dia ao longo de anos. Que dirá reunidas em um único fim de semana.
Atravessando a rua correndo, sem perder a pressa ignorante que nos move nas grandes cidades, não percebi que o sinal estava verde para os carros. Em vez de palavrões, ofensas e buzinas, o veículo parou e esperou que eu terminasse o ato de suprema falta de educação. Que vergonha para mim!
Aliás, o trânsito é onde a diferença de postura se torna especialmente marcante. É extremamente fácil e infinitamente menos desgastante se locomover em Pinhal. A gentileza é a tônica. Para-se para esperar o outro veículo em todas as situações possíveis. Inacreditável!!!
– Bom dia! – ainda é comum moradores cumprimentarem os forasteiros como se os conhecessem. Na verdade, é a nossa falta de educação rotineira que transforma esse ato em algo digno de virar post.
Na feira, comprei quejinho mineiro, daqueles que mantém o encanto do local no paladar durante a semana em que retornamos à vida em uma cidade grande. Compra realizada e paga, esperava meu pai e meu irmão barganharem, de lado, sem prestar atenção no que falavam. Desconto concedido, a esposa do vendedor me chama e devolve um real: – Tem que dar desconto pra moça também!!! O que é certo é certo!!!
E o que dizer da hospitalidade… Como entender o prazer de receber bem, de oferecer a própria cama com prazer sincero e a mesa farta quando não sabemos receber bem e muitas vezes, quando temos visita, não vemos a hora de retomar nossa rotina e ter o mínimo trabalho possível?
Segunda-feira pela manhã, a realidade dura e crua volta: viver em uma cidade grande e super povoada é desgastante e desestimulante. Tento conservar a aura de tranqulidade, mas tenho que sair correndo, tenho duas entrevistas em uma grande empresa.Trânsito, muito trânsito. 
A volta é mais díficil, o trânsito está piorando – como se fosse possível? Alguém buzina, o pedestre invade meu espaço e esqueço de retribuir a gentileza recebida no fim de semana, que já parece estar tão distante. Paro em uma papelaria, preciso de um caderno. Enquanto o vendedor me atende, uma senhora não tão distinta invade a conversa como se não percebesse que eu estou sendo atendida: Quero um papel com cor de menino e menina!!!
Ta louca? Sou invisível? Não ta vendo que cheguei primeiro? Espera a sua vez! – Já estou com com vontade de sair no tapa, mas deixa para lá….O dia vai ser longo. Vai ter criança tocando minha campainha enquanto tento trabalhar, cliente desmarcando entrevista, marmanjo maluco fazendo barulho e jogando futebol no salão do lado (de uma igreja, pasmem!!!) de noitinha, bem naquela hora que a gente quer um descanso, se desligar para esquecer como foi o dia!!!
Mas é assim mesmo, nas cidades que perdem a alma as pessoas se esquecem de que existe vizinho, existe o outro, esquecem de ser educadas. Claro que não são todos, alguns conservam as boas maneiras. Mas são tão poucos que a sensação se dissolve em meio ao caos urbano.
Como explicar ao senhor distinto que se levantou para ceder o lugar a ilustres desconhecidos que senhores e mulheres viajam de pé em transportes coletivos enquanto garotos e barbados dormem e babam nos bancos! Como ele reagiria ao ver a total selvageria que a multidão de passageiros do metro comete todos os dias empurrando e pisando em quem esta em seu caminho no desembarque na Estação da Sé????
Dirão os cosmopolitas que nas cidades pequenas é mais fácil ser educado, conservar valores, ser gentil. Que não estão expostos ao nivel de estresse em que vivemos. Mas será só esta a diferença? Será esta a desculpa para perdemos a gentileza, a doçura, para transformamos nosso local de moradia em uma cidade sem alma…. 
O acúmulo de gente, a mistura de culturas não seriam também responsáveis pela perda de identidade e de valores de uma cidade? A desenfreada invasão de pessoas a um espaço que não comporta tamanha população não seria responsável por gerar a luta pela sobrevivência, descaracterizar a cidade, desumanizar as pessoas, gerar intolerância crônica? 
Não cosigo entender como minha cidade perdeu sua alma, se tornou um lugar tão difícil e em muitos momentos desagradável de se viver….Falo de Santo André, ABC paulista, que mudou radicalmente sua paisagem em poucas décadas, onde o trânsito já é terrível, os ônibus vivem lotados, estacionar carros se tornou um martírio por não encontrar vagas, onde se rouba mais carros que em qualquer outro local do país…

Bendita seja Espirito Santo do Pinhal, onde se conservam histórias, costumes, valores, educação! Onde as pessoas são acolhedoras, honestas! Onde tantas lembranças da infância jamais se perderão, pois quando voltamos a cidade continua exatamente como a deixamos, com sua alma intacta….

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2 Comentários so far
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Nossa!!! Que observação mais profunda e verdadeira sobre a vida tumultuada na “cidade grande”. Embora eu tenha nascido em São Paulo, tenho família no interior e já morei lá. qdo li tudo o que escreveu me identifiquei. Eu amo São Paulo, mas confesso que qdo fico presa nos engarrafamentos ou passo por alguma situação da qual vc citou…ficou pensando se isso realmente é vida…mas meu amor pela cidade é maior, por incrivel que pareça!!
Beijãooo

Comentário por Natália Lima

Boa Tarde !
Moro em Espírito Santo do Pinhal… entrei aqui procurando fotos para trabalho ! O que você escreveu, foi tão profundo.. que não poderia deixar de comentar.. Adoro morar aqui.. sim, as pessoas são educadas, e sempre ouvimos um bom dia.. de um cujo velhinho..que nem conhecemos ! E é isso que faz nosso dia começar com o pé direito ! Sempre que estamos com problemas.. sabemos que o nosso vizinho, poderá nos ajudar ! Conversamos na rua.. andamos com tranquilidade.. e sem pressa de pegar trânsito ! Pinhal está crescendo.. mais, nunca mudará seu jeito de viver.. de ser feliz ! Tenho 15 anos.. e adoro morar aqui !

Beijos !

Comentário por Maria Fernanda




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