Breakfast at Tiffanys


Ao mestre com carinho
julho 24, 2008, 3:42 pm
Filed under: Em algum lugar do passado
Continuando a migração…
Durante três anos a sala de aula de uma escola estadual foi meu local de trabalho. De volta ao jornalismo há outros três, encontro frequentemente com ex-alunos pelas ruas, em diferentes situações. Alguns me ligam, outros aparecem em minha porta repentinamente. Poucos torcem nariz, mas para minha grande surpresa, a maioria é extremamente carinhosa, lembra meu nome, pergunta por que deixei de dar aulas, deseja tudo de bom.
– Coitada da professora, a gente era fogo!!! – costumam dizer.
E quantas lembranças surgem nestes encontros…Diferente daqueles tempos, quando muito assustada e despreparada para aquela missão – sim lecionar é uma missão – eu me estressava e sofria, hoje entendo que no fundo toda a turbulência no relacionamento é resultado de um sistema de educação falido, de pais ausentes, da falta de uma direção séria e preparada, além, claro, do fator grupo. Juntos eram fortes, sozinhos são apenas crianças.
Tive momentos gratificantes. Rodrigo, quinta série, hiperativo. Não parava quieto, não fazia nada que eu pedisse. Em sua turma eu era professora eventual, nome pouco admirável para professora substituta. Certa tarde, perdi a paciência.
– Rodrigo, se você não entregar o trabalho eu vou ligar para sua mãe e pedir para ela vir aqui na escola!
O loirinho abriu o berreiro.
– Não, professora, pelo amor de Deus, minha mãe já ta cheia de problema. Eu não quero que ela fique mais triste por minha causa. Eu sou um idiota, só faço ela chorar…
Surpresa, resolvi negociar, pedindo que terminasse o trabalho e me entregasse depois. Na sala dos professores – a sala da justiça dos anônimos heróis – durante o intervalo, ele apareceu com o dever pronto e um pedido de desculpas. Tentei conversar, garantindo que a mãe dele era muito feliz por ter um filho tão especial, que se preocupava tanto com ela. Daquele dia em diante, sempre que tinha aula em sua sala, Rodrigo me esperava na porta da sala dos professores. Carregava meu material, apagava a quadro negro, fazia chamada. Acho que conquistei sua confiança. Na sétima série, mudou de escola…Que pena….mas ser professor é isto mesmo, é fazer um pouco parte da vida de alguém por um breve tempo.
Mesmo sem muito jeito com crianças, sem experiência nenhuma, me sai bem em outras ocasiões. Talvez porque prefira lidar com crianças maiores do que com o nhen nhen nhem de crianças pequenas, talvez porque seja impossível não se envolver com eles, com seus problemas.
Um dia, me vi tentando convencer o garoto da sétima série de que aquela redação espantosamente bem feita por ele, que relatava a vida de um rapaz perdido, que tenta seu primeiro assalto e acaba morto, não precisava ser o destino de todos, que ele tinha escolhas, que podia ser muito mais. Difícil argumentar para alguém com um histórico familiar nada respeitável. Espero que ele tenha tido um destino diferente.
E quantos momentos insanos. Tinha sala que eu amava entrar, outras me davam cólicas de nervoso. Para chamar a atenção valia tudo: subir na cadeira, jogar giz, cantar, arrancar os cabelos. E como eles prestavam a atenção…um corte de cabelo, uma roupa nova, uma aliança de cor diferente. Ao ficar noiva, minha sala de terceiro ano do ensino médio, veio abaixo. Em segundos notaram a aliança em meu dedo e a gritaria começou….
Tinha bronca dos puxa-sacos dedo-duros, sempre prontos a entregar o colega, a bajular. Cheios de falsas intenções, não pensavam um segundo antes de difamar o melhor amigo ou fazer intriga entre professores, de reclamar de você para o diretor. Felizmente não eram maioria.
Pensar nesta época me faz também voltar ao meu passado e reverenciar meus mestres. Lembro do nome de todos os professores de história: José Adilson, Maria do Carmo, Sônia, João, Lourenço. Se tive sorte de ter sempre fantásticos conhecedores do passado da humanidade ou se o gosto pela matéria é que me faz lembrar deles não sei. Mas tenho certeza que ajudaram muito no crescimento do interesse pelo tema.
Muito mais do que os professores de faculdade, os inúmeros profissionais que passaram por minha vida entre o jardim da infância e o terceiro colegial representam a figura educadora. Do legal moderninho que falava gírias e parecia um colega ao sério e quase britânico professor de língua portuguesa vindo de outras épocas, onde lecionar era um motivo de orgulho supremo, tenho carinho por todos.
Óbvio que após minha experiência valorizo muito mais o ofício. Não é nada fácil estar à frente de 30, 40 pessoinhas, tentado ensinar alguma coisa sem ser patético. Nem todos vão gostar de você, alguns vão te desafiar, poucos vão te levar a sério. Professores são pessoas comuns com uma missão extraordinária. Se forem bem sucedidos ficarão imortalizados por meio de seus ensinamentos.
Dona Maria do Carmo morreu. Fiquei sabendo outro dia por uma amiga muito querida, filha da professora Iara, a querida tia Iara de quem infelizmente não tive o prazer de ser aluna, pois mudei para a escola alguns anos depois, mas por quem tenho grande carinho.
Bem, Dona Maria do Carmo morreu. Professora de história da quinta à oitava série, já era uma senhora na época. Ela me ensinou que a história da humanidade é repleta de ciclos, como nossas vidas, que civilizações acabam um dia. Me contou a lenda do Cavalo de Tróia, me apresentou as pirâmides, os faraós, os gregos. Eternizada está dona Maria do Carmo. Como tantos outros….
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