Breakfast at Tiffanys


O que perdemos
julho 23, 2008, 5:23 pm
Filed under: É sério
Este artigo é recente e foi escrito para ser publicado no Tá na Mão.
Ao migrar o texto Pronomes em Extinção, achei interessante complementar o post com a matéria, que complementa exatamente o que foi levantado no post.

 

Na ânsia de cumprir os compromissos, temos cada vez menos tempo livre, as crianças ingressam mais cedo na vida escolar e passam um número crescente de horas longe dos pais. O que se perde com isto?

Uma das conseqüências da correria cotidiana é o acréscimo de responsabilidades da escola: Espera-se que a instituição cumpra não apenas a formação acadêmica, mas também cuide da criança e, em muitos casos, atue diretamente na constituição do caráter e do conjunto de valores dos indivíduos. Muitas instituições de ensino já incluem na proposta pedagógica programas que ensinem convivência harmônica, solidariedade e princípios de cidadania.

Neste cenário, as famílias estão confusas com a administração das responsabilidades de criação e formação dos filhos.

Para a educadora e psicopedagoga Sônia Colli, presidente da seção São Paulo da Associação Brasileira e Psicopedagogia, a condição atual é preocupante e gera grande prejuízo na formação dos jovens: “A família está abrindo mão de seu papel. A escola tenta suprir esta lacuna, mas não tem condição de abarcar tudo. Além disto, vivemos um período de caos sociológico, onde valores estão distorcidos. Tudo isto está criando uma geração confusa e sem pilares sólidos”, explica.

Segundo Sônia, é fundamental que os pais tomem as rédeas da formação dos filhos e se conscientizem que seus atos serão parâmetros importantes na construção da personalidade. “É preciso dar exemplo. Como cobrar da criança a lição de casa, se o pai compra seu trabalho de pós-graduação?“, exemplifica.

Além da impossibilidade de suprir o papel dos pais em vários aspectos, a escola conta ainda com a dificuldade de firmar sua autoridade frente à desvalorização geral das instituições. “A sociedade ensina que ninguém é respeitável e muitas vezes a depreciação dos professores começa na própria casa. Não existem laços afetivos e respeito com os educadores”, ressalta Sônia.

As conseqüências da falta de códigos de conduta podem ser sentidas, por exemplo, nos casos de violência física ou verbal contra professores ou entre os próprios alunos, tão comuns atualmente.

Luz no fim do túnel

Mas como reverter este quadro, se o tempo de dedicação e a estrutura familiar parece estar se dissipando a cada dia?

Para a educadora, não há fácil solução, mas nem tudo está perdido. O primeiro passo é debater a questão em diferentes níveis sociais e formas de abordagens.  “Vivemos um período de transição e é preciso um exame de consciência dos pais para nos adaptarmos à nova realidade. Estamos cumprindo o papel de pais? É preciso tentar responder esta pergunta”, adverte.

Segundo Sônia, somente com esforço conjunto de pais e educadores, será possível reorganizar a estrutura atual. “É preciso estar próximo dos filhos, participar, dividir as experiências. E amar. Amar muito nossos filhos”. 

 

Causa e conseqüência

O caos sociológico citado por Sônia é, simultaneamente, causa e conseqüência de uma série de situações reprováveis frente os padrões morais, éticos e de cidadania. O exemplo negativo em diferentes classes econômicas e sociais é seguido por crianças e adolescentes, que se tornam adultos “viciados” no comportamento inadequado.   

Da inconseqüente e até despercebida ação de jogar papel de bala na rua às filas duplas de carros na frente de muitas escolas particulares, cada ação de desrespeito com o próximo é uma mensagem velada aos pequenos futuros cidadãos de que não é preciso cumprir regras.

Se uma mãe se dispõe a alugar os filmes de obras que o filho deve ler por recomendação escolar, está tirando a autoridade da instituição. E não pode cobrar que a escola supra as necessidades que ela mesmo anseia.

Como explicar para a criança a diferença entre roubar sinal de TV ou assaltar um banco? Como esperar que a adolescente que é estimulado a mentir para a professora não engane a própria família?

O desrespeito com o patrimônio alheio – público ou privado – ensina que o que não é seu, não tem valor. E traz prejuízos a todos.

Anualmente, só na cidade de Santo André são gastos anualmente $ 600 mil para pintar pichações de viadutos, passarelas, totens e esculturas. Para repor placas de trânsito danificadas, furtadas ou pichadas são mais R$ 840,00. Dinheiro que poderia ser utilizado em melhorias para todos os munícipes.

Outro triste exemplo é o vandalismo com trens da CPTU. Só no primeiro bimestre do ano, a Companhia Paulista de Trens Urbanos registrou 177 ocorrências de depredações – 42 na Linha Luz-Rio Grande da Serra que atende a região. Para reparar os danos, foram empregados cerca de R$ 600 mil. Em 2007, o gasto ultrapassou os R$ 2 milhões. E o maior prejudicado é o usuário do transporte, que sofre com a retirada dos trens de circulação para manutenção e perde a oportunidade de contar com novas benfeitorias.  

E enquanto o ciclo do mau exemplo não for cortado, enquanto as leis não forem cumpridas com seriedade, o caos sociológico não terá fim.   

 

 

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