Breakfast at Tiffanys


Dona Lourdes
Novembro 4, 2009, 6:54 pm
Arquivado em: Sem-categoria

DSC00182Eu deveria ter sentado e anotado o passo-a-passo como minha avó fazia seu arroz e feijão inconfundível e inigualável. Há tempos tinha vontade de saborear os pratos dela, que tinha se aposentado da cozinha…Mas como praxe, de todos, acho, sempre achei que tinha mais tempo. Não queria me tocar do tempo correndo, da vida passando.

Deveria também ter perguntado como ela conseguia controlar as emoções, superar as perdas da vida: a morte do marido, as doenças, as dores da falência do corpo, da independência…Mas a gente nunca faz as perguntas que deve. E agora engole a saudade de questões fundamentais da vida perdidas para sempre.

Minha avó desmanchou sua casa poucos meses antes do fim. Dividiu suas coisas, suas lembranças, deixou para trás a vida. Chorou bem pouco e seguiu em frente.  O quanto sofreu só ela sabia. Como sempre, prefiriu a discrição e a elegância de não viver chorando as mágoas. Nunca foi chegada a roupantes de afetividade, mas jamais passou perto da hipocrisia.

Senti que perdeu bastante da vontade de viver. Mas se queria ou estava preparada para a morte, não sei. Acho que não. Acho que ninguém está, nunca.

No velório ouvi muitos clichês da boa vontade que assombra pela falta de criatividade – e sensibilidade: Ela descansou… Ontem, desabafei pro marido: Mas quem disse que ela estava cansada, afinal??????

Minha vó adorava novela, artesanato e sabia de tudo o que estava acontecendo no mundo…até o fim.Era íntima do Silvio Santos, a quem chamava simplesmente de Silvio. Afinal, tantos anos de fidelidade televisiva transformaram o homem do Baú em alguém da família.

Minha vó me deu boa parte de suas amadas plantas, de seus crochês e seus copos. Me deu ingressos para ver a última peça de Paulo Autran, lamentando não mais aguentar ficar sentada nas cadeiras do teatro por tanto tempo.

E eu, que não costumo acreditar em nada, sinceramente não sei onde ela está agora. E se é que ela realmente está em algum lugar, além da lembrança forte de quem a queria bem. Mas gostaria de que ela estivesse ao lado do meu avô, assistindo Paulo Autran em uma poltrona bem confortável.  E que mandasse via e-mail a receita do tempero batido com cenoura – é tudo o que lembro – para eu tentar copiar e descobrir que jamais vou fazer igual.

Tchau Vó….


4 Comentários até o momento
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Lamento muito mesmo sua perda. esse momento tão dificil, que voce conseguiu descrever com verdade e poesia.
Voce vai se lembrar de mais coisas. Sempre vai ter algo a mais para lembrar de alguem tão especial que ajudou voce a ser o que é.
Os classicos e tradicionais, ficarão para um dia que queira, que possa.
Um abraço apertado.

Comentário por picida ribeiro

Ô, Ka! Ô, Ka! Por hoje é só…

Carinho meu.

Comentário por Selma Barcellos

Vó é tudo de bom e muito mais. Sempre aquece a alma da gente como ninguém. É afago na vida da gente.
Velórios sempre fazem as línguas transpirarem o nosso despreparo para esta etapa da vida.
Gostei muito da ideia dos emails… Eu queria muito fechar os olhos e por um instante, ter de novo um abraço que faltava quebrar os ossos, sempre me deixava sem fôlego, um beijo apertado por um certo queixo pontudo, mas preenchida de amor e alegria! (A bichinha batia no meu ombro, mas insistia em erguer-me do chão… Braba que só, linda como só as vós sabem ser…) Um beijo enorme! com amor, Lu

Comentário por lu

Ka… lindo texto. Principalmente por ser uma história real. Pois é, a morte nunca é bem vinda. A gente sempre sabe que ela vem, mas ninguém acredita de verdade (ou não quer acreditar) até que ela nos “surpreenda”… Bom, nada aplaca a saudade que ela deixa atrás de si. A gente vai se acostumando com a dor, apenas, mas na minha opinião, ela nunca se vai.
É o que eu sinto em relação a cada pessoa amada que eu já perdi. Eu nunca os esqueci, mas o ser humano tem uma capacidade incrível de adaptação.
Acho que o melhor conforto é lembrar que a sua avó não foi vazia e nem passou por aqui sem contribuir com nada, é pensar em todas as coisas boas que ela te deixou e em cada lembrança afetuosa.
E se tem uma coisa que me inquieta muito é o pensamento de que cada uma das nossas alegrias poderão ser as maiores tristezas no futuro. Mas por outro lado, se uma tristeza como essa aparece, é porque a gente viveu coisas lindas… É mesmo um paradoxo…
Falei demais, fiquei emocionada com o teu texto e com a tua perda.
Um cheiro grande, tá?!

Comentário por Dora




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